Mas afinal, pra que serve a filosofia?

Por João Victor, 

Volta e meia, encontro alguém que para e me pergunta: “Mas para que serve a filosofia?”. Sempre fico impressionado com essa pergunta, não importa o tempo que passe. Mas entendo o que essas pessoas estão perguntando: tipo, qual a utilidade? É só um monte de citações legais mesmo, uma coisa pra parecer inteligente e profundo? Não. Ao menos, não do modo como vejo filosofia. Ela serve para muito mais e tem uma importância crucial na vida de quem se interessa por ela.

No entanto, não temos tantas pessoas interessando-se por filosofia agora. Parece que o ritmo de vida moderna e as ambições compartilhadas por todos os integrantes da sociedade excluem a reflexão filosófica do rol de prioridades. Importa mais ganhar dinheiro, ter o carro do ano, passar num concurso público! Penso que isso é uma pena. Mas um bom modo de tentar lutar contra, talvez, é dar uma resposta àqueles que fazem sempre essa pergunta: para que serve a filosofia?

Com vistas a oferecer essas respostas, quero expor o pensamento de um historiador de filosofia a quem muito admiro, o francês Pierre Hadot. Esse historiador, no estudo da filosofia antiga [sua especialidade], percebeu algo extremamente importante e que mudou o modo como se lê os gregos: ele percebeu que, para os antigos, a filosofia era não apenas um discurso, mas um modo de vida.

É mais ou menos o seguinte: para um filósofo grego, o discurso filosófico não era um fim em si mesmo, algo que se faz por si só sem ter em vista algo mais. O discurso filosófico, o escrever a própria filosofia e passá-la aos outros, era apenas um passo dentro do que se considerava fazer filosofia. Muito mais importante do que escrever a própria filosofia e repassá-la, explicá-la, defendê-la em debates, era vivenciá-la.

Essa percepção nasceu com Sócrates. Já vimos que Sócrates mudou o modo de se entender filosofia. No entanto, vimos essa mudança apenas por um lado. Hoje, podemos aprofundá-la um pouco.

Sócrates tinha uma discussão majoritariamente ética. Ele se preocupava em saber como devemos viver, qual o melhor modo de levar a própria vida. Questões existenciais e práticas o incomodavam, e isso mostra bastante bem por quê, para ele, a filosofia devia ser vivenciada. Afinal, de que adianta debater o que é justiça sem a intenção de ser justo? É elucidativo que Sócrates não tenha escrito nada. Isso mostra que, para ele, importava menos o discurso filosófico do que a vivência filosófica. Uma passagem interessante, que nos mostra bem isso, vem das memórias sobre Sócrates escritas por Xenofonte. Hípias, o sofista, recusa-se a responder a Sócrates o que é a justiça antes que ele lhe diga o que pensa ser a justiça de fato. É este o diálogo:

Há muito que zombas dos outros, interrogando e refutando sempre, sem jamais querer prestar contas a ninguém nem sobre nada expor tua opinião.

Ao que Sócrates responde:

Como! Hípias, não vês que não cesso de mostrar o que penso ser o justo? Se não por palavras defino-o por atos.

Podemos perceber claramente a ideia de que a filosofia verdadeira deve ser vivenciada e que isso importa mais do que expô-la teoricamente. Hadot percebeu que essa ideia é constante na filosofia grega, não apenas em Sócrates, mas em todos que o seguem. Platão, Aristóteles, Pirro, Epicuro, Zenão, Plotino [para mencionar apenas os mais célebres]. Todos eles viam a filosofia como um modo de vida, uma investigação que, de tão importante, deveria ditar as atitudes dos que a empreendiam.

Dessa noção, vêm alguns dos episódios mais pitorescos da filosofia grega. É notória a anedota que se conta de Diógenes, o cínico. O cinismo foi uma corrente que pregava, entre outras coisas, o retorno à natureza por parte do homem e sua dissolução da vida civilizada que, segundo eles, apenas os prejudicava. Para seguir à risca sua filosofia, Diógenes vivia num barril (eu ouvi alguém dizer “Chaves”?), vivendo como animal, literalmente. Pois bem, conta-se que Alexandre, o Grande, quis conhecer o famoso Diógenes e o interpelou, perguntando-lhe o que desejava. Mas Alexandre lhe fazia sombra. Diógenes, dizem, olhou-o e pediu que Alexandre saísse da frente, pois estava tapando o sol.

Essa história, verídica ou não, mostra bastante bem o quanto a noção da filosofia como modo de vida enraizou-se no pensamento grego. Um dos mais poderosos homens do mundo está na sua frente, dizendo que lhe dará o que você quiser, e você pede a ele que saia da frente, pois está tapando o sol. O cinismo (corrente filosófica, vejam bem, não uso o termo no sentido contemporâneo) foi seguido à risca nesse episódio. Não apenas uma filosofia pregada teoricamente, dita como verdadeira em debates no pedestal, mas vivida, aplicada.

É apenas um exemplo. Outros tantos existem na história da filosofia antiga. Um ponto interessante, que Hadot também notou, é que, muitas vezes, os escritos de filósofos gregos parecem não dizer nada de novo. Há vários registros de escritos de um mesmo autor que repetem a mesma teoria diversas vezes, e nada mais fazem. Pensando sobre isso, Hadot percebeu que aquilo se devia ao fato de que também o discurso filosófico era um modo de exercitar a vida filosófica.

Isso ocorria de dois modos: primeiro, o discurso era um modo de relembrar ao filósofo como ele deveria viver, relembrar a ele os preceitos que deveriam guiá-lo; segundo, era um modo de incentivar, no outro, uma mudança de vida, a mesma que o filósofo autor dos textos havia tomado.

Ou seja, a filosofia e o discursar sobre filosofia eram, para os gregos, modos de se viver. Ser filósofo era tomar uma decisão, fazer uma escolha de vida, dizer “Vou buscar a sabedoria e irei vivenciar a minha busca e os frutos dela”. Platão escreveu seus diálogos tendo isso em mente [assim como Aristóteles, ao formular sua ética]. Dois grandes filósofos (os maiores de sua época) que pensavam do mesmo modo que Sócrates e seus contemporâneos.

Isso vem se perdendo desde então. Vários filósofos além dos antigos pensavam do mesmo modo, não se pode negar. Temos, apenas a título de exemplo, Wittgenstein, Nietzsche, Montaigne, Kant, Kierkegaard. Mas o crescente academicismo fez com que se perdesse cada vez mais essa noção, de modo que, atualmente, é raro alguém que evoque a antiga noção de filosofia.

Hadot discute os motivos para essa perda da noção de filosofia como modo de vida. Não quero entrar nesse mérito, mas acho correto dizer que é uma mudança lamentável. Hoje em dia, não vemos quase ninguém que declare ser a filosofia um modo de vida. Poucos acadêmicos diriam que suas pesquisas influenciam suas vidas pessoais. Essa noção dos gregos foi esquecida.

Mas, sempre que me perguntam para que serve a filosofia, é isso que respondo: digo que a filosofia, de um modo ou de outro, ensina, àqueles que por ela se interessam, a viver. É o que sempre busquei nela. Respostas, claro, filosofia é um constante interrogatório à realidade, que reluta em responder satisfatoriamente (ou, talvez, apenas sejamos surdos incorrigíveis). Mas a filosofia é, mais que tudo isso, uma busca que se reflete na própria vida. Mais poderoso que auto-ajuda, garanto. E muito mais legal, acrescento.

Minha ideia, neste texto, foi trazer uma visão da filosofia grega, apresentada por Hadot, para levantar uma discussão que considero importantíssima: o papel da filosofia no mundo atual. Parece que a grande maioria pensa ser esse papel inexistente. Discordo fortemente, é claro. Quanto mais a reflexão filosófica perder lugar na humanidade, pior para nós.

Mas, e vocês, o que acham? A filosofia tem sua importância existencial, pessoal, como eu penso? Ou é apenas um interesse teórico? E o que acham da tese de Hadot? Não deixem de curtir o texto e dar sua opinião. Obrigado! Agora você também pode votar no literatortura para TOPBLOG 2012 :]!

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João Víctor é estudante de filosofia da UNB. Ocupa seu tempo livre tentanto descobrir a Pergunta Fundamental (a Resposta, nós já temos) sobre a Vida, o Universo e Tudo o Mais. Da filosofia e de seus livros adquiriu problemas de visão, nenhuma perspectiva de um futuro financeiro promissor e muitas dúvidas.

SOBRE O AUTOR

idealizador e administrador do site, da Revista e da página Literatortura; seu primeiro livro: "ovelha - memórias de um pastor gay" será publicado no início de 2015, pela Geração Editorial.

Comentários

  1. Rayanne disse:

    A importância da filosofia se faz para o indivíduo que a procura de corpo e mente abertos, tendo grande influência na mudança e no crescimento como ser pessoal e coletivo. Ela faz com que o seu observador veja e seja em um mundo diferente; muda-o por dentro e por fora. Infelizmente, essa mudança não pode ser sentida por todos, mas somente por aqueles que buscam ou se deixam invadir pelo poder devastador da filosofia.

    1. João Víctor disse:

      Verdade, Rayanne. Nem uma palavra a acrescentar, concordo totalmente.
      :)

  2. André Pontes disse:

    Ótimo texto, parabéns. Também faço essa leitura quanto à filosofia. Muitos acadêmicos se preocupam apenas em desenvolver “teses”, entretanto, como o texto acima diz que muitos não vivem suas produções. Tem uma frase do Marx bacana que aponta justamente isso, é mais ou menos assim: “Os filósofos não fizeram mais que interpretar o mundo de forma diferente; trata-se, porém de transformá-lo”. A primeira transformação é em nós mesmos…

    1. João Víctor disse:

      André, bem legal essa frase do Marx, já conhecia. E tem uma mensagem interessante, mesmo que a gente se abstenha de toda aquela coisa revolucionária do Marx.
      :)

  3. Rodrigo Oliveira disse:

    Boas palavras rapaz. Adiante, alguém indagar a existência da filosofia ou sua eficácia, não seria uma espécie de momento filosófico? Talvez para um leigo que negligência a filosofia, isso poderia estar passando despercebido por ele. Seguindo minha humilde linha de pensamento, a Filosofia é importante para a formação de um cidadão pensante, àquele que não se contenta com simples respostas e está sempre atrás do conhecimento, quanto mais tem, mais ele deseja. Pena não darem tanto valor à ela, a filosofia.

    1. João Víctor disse:

      Sem dúvida, Rodrigo, acho que questionar a existência ou eficácia da filosofia é filosofar, por si só. O problema é que esse questionamento é, normalmente, feito para ridicularizar quem se preocupa com essas questões. Uma pena, como você mesmo disse.

  4. Luh disse:

    Já é gostoso de ler teus textos!

    Ler algo e achar bonito é fácil, agora praticar isso é difícil. Admiro Sócrates por ele ter vivido o que defendia, isso é ser ético, para mim.

    “Mas a filosofia é, mais que tudo isso, uma busca que se reflete na própria vida. Mais poderoso que auto-ajuda, garanto. E muito mais legal, acrescento.”

    adorei essa parte :D

    Vamos viver a filosofia o/

    1. João Víctor disse:

      Obrigado, Luh!
      Pois é, esse ponto de Sócrates é reconhecido mesmo pelos seus críticos. Um exemplo, com certeza.
      :)

  5. Paulo Guerra disse:

    Eu utilizo da filosofia para abrir minha mente e me tornar um espirito-livre. e nada mais.

    1. João Víctor disse:

      Já me parece muita coisa, Paulo hahaha

  6. Nane disse:

    Sabe João Victor, talvez tenham banalizado a filosofia nos dias de hoje. Não tenho gabarito para falar muito sobre esse assunto que você domina tão bem, só o que me pergunto é se esses pensadores viveram de fato suas filosofias. Talvez por ser uma “rabiscadora” metida a poetisa, eu me pego pensando nos conflitos do corpo e da alma, no equilíbrio que a filosofia deles deram a eles (ou não). Gosto dos pensamentos sim, mas sinceramente não consigo conceber que eles, filósofos, viviam plenamente o que diziam e pregavam.
    Um abraço e parabéns pelo texto.

    1. João Víctor disse:

      Pois é, Nane, a grande questão não era se eles viviam, mas se eles tentavam viver como ensinavam que se deveria fazer. Mesmo porque, num caso como Platão, por exemplo, para quem a própria sabedoria era algo inalcançável, seria impossível ser um sábio, realmente. Deveria apenas buscar ser. Creio que os gregos levaram a sério sua proposta. Algo que hoje em dia não se faz tanto mais, como eu disse que me parece.
      De qualquer modo, obrigado!
      Um abraço.

  7. Renata Moroni disse:

    Muito legal a proposta do texto!
    Como você disse, nos dias de hoje se você falar sobre filosofia, provavelmente a primeira coisa que vem à cabeça de muitas pessoas são aquelas frases de efeito sábias que fazem de quem as repetem “pseudo-cult”. E tentar ser cult, principalmente por manifestações irrelevantes em redes sociais, já é algo tão banal que acabou virando sinônimo de breguice. Talvez esse preconceito (por que não?) seja também um dos fatores que afastam as pessoas da verdadeira filosofia. No âmbito pessoal, acho uma pena a falta de interesse da maioria dos meus amigos pelo ato de filosofar, de se questionar. Parece até preguiça de pensar, abrir a mente. Mas o que, para mim, sempre foi legal na filosofia, ao menos ao ler textos filosóficos, é identificar como universais perguntas que eu acreditava terem sido feitas apenas por mim em momentos de reflexão. Infelizmente meu contato de maior relevância com a filosofia é através da leitura, mesmo que eu ainda saiba relativamente pouco sobre o assunto. Mas sinto bastante falta de ter conversas que estimulem a reflexão e o pensamento, e isso se deve ao fato de todo o assunto tratado no texto: as pessoas não veem a utilidade da filosofia, por isso deixam de conhecer o mundo maravilhoso que ela tem a oferecer.
    Enfim, gostei muito de ler o texto e os demais comentários e ver que há bastante gente que também pensa sobre isso. :) Ótimo blog!

  8. Marcos Rodrigues disse:

    Cara, sou seu fã.

  9. Marcella disse:

    Boa ! Acredito sim que a filosofia tenha seu lado prático. Afinal, não faria sentido passar horas e horas se dedicando a perguntas que não alterariam seu modo de viver. O problema é que hoje em dia não tá tão fácil assim viver apenas disso, como antigamente os gregos faziam, por exemplo. Tanto por questões financeiras quanto por valor social mesmo (tem gente que ainda pensa que filosofia é auto-ajuda!). Eu quero muito fazer esse curso independente de tudo isso e o que não falta é gente me fazendo essa pergunta ! kkkkkk.

  10. Isabel disse:

    Basicamente, a filosofia é o caminho para nos ensinar a pensar…..