“Sempre gostei de andar de salto agulha na beira do penhasco, saboreando o perigo e sentindo o vento borrar minha maquiagem e bagunçar meus cabelos. Costumava correr na beirada, sabendo que um passo significaria o fim. Corria com uma garrafa de vodca das mais baratas na mão e um cigarro torto e mal aceso entre os dedos amarelos, cambaleando entre a vida e a morte, achando que ali estava a prova que na vida havia algum sentido. Como cortar para ver o sangue escorrer, como roubar para correr o risco de ser pego, como mentir para driblar os outros, viver à beira do penhasco causando a maior das adrenalinas. Eu fui uma amante fiel do perigo. Nunca escondi os gemidos de prazer que me proporcionava nas profundezas dos meus lençóis. Era tudo tão excitante, era tudo tão ilusório…”
O texto não me parece um conto ou uma cena. Tem mais cara de devaneio poético, de sequela [quando falo cara, falo estrutura etc]. Isso não é um julgamento, apenas uma observação.
1º Há problemas de tempos verbais no texto. Uma hora usa-se o “sempre gostei” e depois o “costumava”, “corria” e depois o “cambaleando”. O problema de mudar o tempo verbal deliberadamente dessas palavras é que elas são usadas para as mesmas definições; Expor ações que costumava fazer, ou sempre fez, ou está fazendo – não consegui definir. Isso é diferente de trocar o tempo verbal no trecho [revisado] “cambaleava entre a vida e a morte achando que ali estava a prova de haver sentido na vida”. Essa mudança não tem problema, já que no primeiro verbo da sentença o leitor percebe em qual tempo a personagem está.
2º “Corria com uma garrafa de vodca das mais baratas na mão e um cigarro torto e mal aceso entre os dedos amarelos…”… que tinha as unhas pintadas de vermelho bordô por causa da paixão incessante que sentia por… Percebem? Detalhes que vem numa cacetada só. Adjetivos adjetivos adjetivos. Eles podem transformar uma sentença mais ou menos em excelente. Porém, podem transformar uma sentença excelente em mais ou menos.
3º “corria com uma garrafa de vodca das mais baratas na mão”… NA MÃO? UOU! Haha. Cuidado. Deveria estar escrito se fosse nos pés, numa bolsa. Se nada for dito, eu assumo que seja nas mãos, obviamente.
4º O texto não me parece ter fim. É verdade. Sabe por quê? Porque pra mim o fim está no meio. E o meio está no fim. “Achando que ali estava a prova que na vida havia algum sentido”. Mas o que faz depois? Continua me dando exemplos… Ou seja, chegou-se a uma conclusão, mas o autor quer falar mais pra depois não me levar a conclusão nenhuma. Pois quando o texto vai terminar “era tudo tão excitante… Era tudo tão ilusório.”
5º “o risco de ser pego”. Foi intencional? Ele era um travesti ou um homem que gostava de se vestir de mulher? Se for, ótimo e interessante. Se não, cuidado. Haha.
6º “saboreando o perigo e sentindo o vento borrar minha maquiagem e bagunçar meus cabelos”. Isso é mais pessoal, ainda assim, julguei desnecessária esses dois “e”. Eu colocaria uma vírgula no primeiro. Sim, conheço a técnica que repete “e’s” propositalmente, mas não achei viável nesse texto por causa do ritmo. [bem pessoal esse número 6]
Como o texto é curto, fiz até uma versãozinha [sem revisão] [que provavelmente também contém problemas].
Eu gostava de andar de salto agulha na beira do penhasco; saborear o perigo, deixar o vento borrar minha maquiagem, bagunçar meus cabelos. Eu corria segurando a mais barata garrafa de vodca e um cigarro torto entre os dedos. Eu me equilibrava na beirada; um passo vacilante e fim. Eu me cortava pra ver o sangue escorrer. Roubava, pra ser pega. Mentia, pra ludibriar. Amava, pra chorar. Amava… Fui amante fiel do perigo. Nunca escondi os gemidos de prazer nas profundezas dos lençóis. Excitantes e ilusórios. Eu caminhei entre a vida e a morte, achando que ali estava a prova de que há sentido em não morrer.
observação: Acabei de descobrir que esse texto é de uma autora já publicada; Mayra Dias Gomes, o nome do livro é Fugalaça. A confusão se deu porque uma seguidora enviou esse texto sem grandes especificações. E como eu achei que era um texto dela, dissequei. Pesquisei sobre a autora e descobri que foi lançada quando ela tinha 17 anos. Dizem que foi notícia em vários jornais e fez certo sucesso. Mas ao ler algumas críticas, descobri que a obra chamou mais atenção pela idade da autora e pelo pai do que pela qualidade literária. Eu não li o livro e essa análise serve como análise desse trecho que me foi enviado. E isso só torna as coisas piores. Um livro publicado que chama atenção da mídia escrito de tal maneira com erros tão bobos.
.a literatura eterniza.

Bom, excelente o excerto do primeiro livro da Mayra. E boa análise. Só não concordei muito com o 4º item. Quanto ela diz que “o risco de ser pego” não está se referindo à ela, eu lírico. Veja que, no período precedente, diz que corria “cambaleando entre a vida e a morte, achando que ali estava a prova que na vida havia algum sentido”, para logo em seguida dizer que o ato de correr no precipício era igual aos atos de “cortar para ver o sangue escorrer”, “roubar para correr o risco de ser pego” etc. Logo, não faz referência a si, mas ao ato, de forma genérica.
C_mpl_t_, entendi o que você quis dizer. E faz sentido. Talvez tenha sido um erro meu ou da autora. Não sei. Mas eu preferiria evitar esse tipo de coisa. Cria uma certa confusão.
Enfim, ótimo comentário.
Esse Dissecando foi muito bom!!! Eu amei o texto da mocinha.. *-* Realmente.. Me impressionei com tudo! Consegui até sentir o vento e a imensa adrenalina enquanto lia o texto … Muito incrível! ^-^
Haha, que bom que gostou Ana
E o pior…Publicado pela editora Record ._. , mas de modo geral não é um livro ruim, claro que ela era muito jovem e escreveu esse livro em um momento conturbado de sua vida, envolvendo uso de drogas, perda do pai, abandono da escola…Mas, é uma leitura que me prendeu.
é. Você pode falar mais do que nós sobre a obra, haha.
É, eu o adquiri há alguns meses e o li em dois dias. É, que por saber que se trata em boa parte da vida dela mesma, me deixou curiosa. Algumas coisas ela diz que é ficção, mas tem uma parte onde ela relata que ficou sabendo da morte do pai dela – o dramaturgo Dias Gomes – através da internet quando ela tinha apenas 11 anos, é um fato verídico e me emocionou a forma como ela descreveu esse episódio :]
Adorei o dissecando! O texto da Mayra refeito ficou muito bom! Mais claro e gostoso de ler. Parabéns!
Acho que quase todos os itens foram pessoais. Eu por exemplo me senti mais dentro da leitura no texto original. Em textos desse jeito não se deve primar a objetividade. A escrita automática da escritora, redundante e filosófica as vezes dá certo.
Da mesma maneira, achei o trecho fraquinho. Mas achei que o Dissecando ia falar mais das ideias (não sei se li errado), dava pra falar que parece ser um trecho de desespero emocional. Escrevo muito nessas circunstâncias, e sempre tento parecer o mais caótico possível.
Até porque estilo literário existem aos montes. Se eu pegar um trecho de Dostoiévski que estou lendo agora posso citar inúmeros pontos que para alguns seriam erros (não falo de gramaticais ou de coesão), mas pra mim deixam a história envolvente e única. Da mesma maneira que posso pegar Aldous Huxley e citar inúmeros pontos dos quais eu não gostei na sua forma de escrever, mas para outra pessoa isso é irrelevante.
No mais, aguardo mais Dissecando
Devanil,
a proposta de analisar ideias etc é para texto já publicados [de autores "consagrados"].
Já que recebo número de pedidos de análises/críticas para autores inexperientes [como eu], decidi fazer o dissecando dessa forma. Analisando estrutura etc e dando alguns pitacos.
Mas voltando a discussão.
Preferir o texto original é de todo o direito, obviamente. Até porque a minha versão é baseada em cima de um texto que li e fiz de “supetão”. Fora do meu estilo e das minhas ideias.
Mas discordo quando você diz que textos desses não primam pela objetividade. Discordo em dizer que eu não disse isso. Haha. Não que você está errado. Eu discordo porque eu não falei sobre isso, em momento algum.
Mas [3o parágrafo que começo com "mas"] discordo porque na minha opinião não achei a escrita da autora filosófica, mas só perdida mesmo. Algo que se escreve numa noite triste e não se passa mais o olho. E por isso pedi nas “regras” CONTOS e não sequelas ou devaneios poéticos como esse [porque acho bem mais difícil e pessoal analisá-los].
Quanto a escrita filosófica, redundante e “automática” é um pouco complicado. na literatura poucas coisas são automáticas. Pra mim automático é aquilo que vai na inspiração, sem uma análise técnica, estrutural e revisional?
Digo, não existe texto publicado de boa qualidade que seja feito sem uma revisão. Havia um livro de poemas do Fernando Pessoa que supostamente foi feito de uma vez, mas já descobriram que não foi bem assim.
Não sei se foi isso o que você quis dizer com automático, mas…
enfim,
ótima discussão.
hehe, boa resposta…
A revisão com certeza é feita em todos os textos publicados. Mas a escrita automática que eu disse é muito complicado de definir, a Clarice Lispector faz isso de forma muito boa no Água Viva, falando sobre o “IT”. Não foi o livro que eu mais gostei justamente porque eu notei essa escrita automática e não me agrada muito, a achei confusa (claro que em um nível literário bem maior que o trecho analisado).
“Escrevo-te toda inteira e sinto um sabor em ser e o sabor-a-ti é abstrato como o instante. É também com o corpo todo que pinto os meus quadros e na tela fixo o incorpóreo, eu corpo a corpo comigo mesma. Não se compreende música: ouve-se. Ouve-me então com teu corpo inteiro. Quando vieres a me ler perguntarás por que não me restrinjo à pintura e às minhas exposições, já que escrevo tão tosco e sem ordem. É que agora sinto necessidade de palavras – e é novo para mim o que escrevo por que minha verdadeira palavra foi até agora intocada. A palavra é minha quarta dimensão”
Muitas das vezes no próprio texto ela diz que nem ela entende o que escreve, totalmente perdida entre as palavras, e esse é charme da Lispector, hehe.
Não sei dos detalhes técnicos, se ela revisou ou não :/
No mais é só medo da análise porque enviei um texto, apesar de não saber se ele vai ser aceito pq passa do limite de palavras, hehehee
Mas [3o parágrafo que começo com "mas"] discordo porque na minha opinião não achei a escrita da autora filosófica, mas só perdida mesmo. Algo que se escreve numa noite triste e não se passa mais o olho.
Sobre isso, olha como ela inicia o livro:
“Ouvia Lisa Germana no repeat e misturava tédio com tragadas de Camel. Bebia Coca-cola com irresolução e esperava uma nave espacial de inspiração aterrissar na minha varanda. Olhando para fora e me perdia no céu escuro, tentando procurar em suas entranhas desconhecidas o reflexo dos meus olhos. Não havia lua, ou estrelas sequer, e eu sabia que seria mais uma noite calma sentada na frente do meu computador. Eu contemplava a escuridão tenebrosa, procurando nela respostas para perguntas que o dia ensolarado não me permitia perguntar. Deixava a sedução da noite me levar. Deixava-a despertar os pensamentos mais obscuros e subentendidos que vagava pela minha cabeça. Ela criava esperanças estúpidas para as minhas desilusões e dava vidas às rosas murchas do jardim de minha solidão – o desfecho peculiar daquele que sente amor.”
Vagavam pela minha cabeça.* ao invés de “vagava”, errei na hora de digitar.
Particularmente… eu achei o original mais intenso e envolvente~~ não sei se não gostei tanto do “corrigido” assim por saber ser corrigido ou se a forma lapidada deste tirou toda a graça da sensação de caos que é descrita no fragmento… é como se o conteúdo me dissesse uma coisa da qual a forma discorda completamente .-.
Também prefiro o original.
Excelente este. E preferi o texto redigitado.